Começando um time

Naclara/ agosto 24, 2016/ Inspiração, Sem categoria/ 0 comments

O problema de conseguir jogadoras para fazer parte de um time de roller derby parece ser algo comum no Brasil todo. Já não bastando o equipamento ser caro e o país não ter uma cultura de patinação, quando você finalmente consegue pessoas com equipamento E que estão aprendendo a patinar, ainda assim há um longo caminho até realmente poder dizer que temos um “time de verdade”.

Mas o que é um “time de verdade”? Com essa pergunta na cabeça, fui entrevistar algumas ligas que têm ou já tiveram o mesmo “problema” de não ter um time com as 14 meninas, um roster completo, mas que mesmo assim ainda jogam contra outros times.

Começando pela minha experiência pessoal com as Sugar Loathe Roller Derby, que por muito tempo não tinha gente o suficiente nem para brincar de pular corda.

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Um dos principais problemas que notamos era que havíamos parado de receber novas meninas. Talvez tivéssemos acomodadas porque em algum tempo áureo tivemos time (inclusive time B no 1º Brasileirão) e a liga tinha em torno de 50 pessoas ativas. Como a vida exige muito de todos e o roller derby não é uma prioridade (afinal, não dá dinheiro) para a maioria, muitas se afastaram e nos vimos em um momento de esvaziamento da liga.

Passado um tempo, as poucas pessoas que sobraram e tiveram força de vontade começaram a parar para pensar sobre a situação em que estávamos e reformular a forma como vínhamos caminhando. Começamos a investir mais no planejamento de treinos e nos recrutamentos e a liga voltou a receber novas pessoas.

E então chegou o mágico momento que entre veteranas e freshies recém passadas nos minimum skills (logo, aptas a entrarem no tiroteio que é o track), puderam ENFIM começar a treinar situações de jogo. Com alguma ousadia decidimos fazer um jogo interno, mesmo tendo apenas 6 em cada time. E sabe o que rolou? Deu super certo!

Além de conseguirmos jogadoras, temos apoio de oficiais e NSOs que nos ajudam sempre!

Além de conseguirmos jogadoras, temos apoio de oficiais e NSOs que nos ajudam sempre!

E essa história não acontece só aqui. Temos alguns outros exemplos espalhados pelo Brasil.

As Wheels of Fire, de Porto Alegre, demoraram 3 anos até terem seu primeiro time competitivo e as Blue Jay Rollers, de Curitiba, 5 anos! As Wheels em sua primeira competição alcançaram o 3º lugar no Brasileirão e as Blue Jays competirão nesse mesmo campeonato pela primeira vez esse ano!

Já as Gray City Rebels, desde seu início, implantaram a cultura de que tendo o mínimo permitido possível de jogadoras, elas estariam lá no track, pois acreditam que juntas são capazes de enfrentar qualquer coisa. Legal, né?

Colocando em números, as Wheels atualmente têm 8 jogadoras no roster principal, enquanto as Rebels têm 10 (e já chegaram a jogar com 9 alguns jogos!). As Blue Jays estão com 9 meninas, mas até o Brasileirão esperam chegar às 14.

E se você acha loucura, não duvide! É possível sim treinar com poucas meninas e ir para um jogo assim mesmo. Óbvio que será necessário trabalhar mais o condicionamento de toda a equipe, porque durante a competição as substituições serão menos frequentes. Outro fator essencial é manter a motivação da equipe. Há dias que o treino estará mais vazio e as opções de exercícios mais limitadas, mas todas devem ter a consciência de que apenas treinando forte e jogando, mesmo em condições adversas, é que a equipe pode crescer e se consolidar. Como disse Chu, uma das treinadoras e jogadora das Wheels: “mesmo com o time pequeno hoje nós temos noção que estamos criando experiência para poder passar para as futuras skaters da equipe, criando assim, uma base forte para o time”.

Wheels of Fire no Brasileirão de 2015. Foto de Johnny Derby.

Wheels of Fire no Brasileirão de 2015, comemorando a colocação final com orgulho. Foto de Johnny Derby.

E se vocâ acha que ir para um jogo só “apanhar” é perda de tempo, saiba que mesmo perdendo ainda há muito aprendizado, como enfatiza a Gheysa, uma das mais antigas jogadoras das Blue Jays e parte do comitê de treinamento: “Ir para o Sur5al [evento que rolou em julho em São Paulo] foi muito importante paras as 5 que foram e para a liga como um todo. Foi uma experiência de jogo com nossas companheiras de liga, coisa que não havíamos tido ainda. Isso nos possibilitou principalmente perceber nossas maiores falhas, como em reformar, reciclar e acompanhar o pack, já que nem sempre temos um pack nos treinos. Quando não é possível ter 2 times, nós treinamos com uma wall completa e uma jammer adversária, com ou sem uma blocker auxiliando. Também fazemos treino de jogo com 2 times incompletos (4×4, 3×3, 4×3) para treinar diferentes situações no bloqueio, como se tivéssemos alguém no penalty box.”

Olha esse monte de gente que já faz parte das Blue Jays!

Olha esse monte de gente que já faz parte das Blue Jays!

E o mesmo fazem as Rebels em seus treinos, como contou Rafaella Aquino, que é a atual vice presidente da liga e parte do travel team, o The Humming: “Fazemos como se estivéssemos com jogadoras no banco, walls menores, power jams… Situações que realmente acontecem, inclusive para times com muitos integrantes”. E completa: “A gente sempre sai mais unida dos jogos. Quer a gente perca ou ganhe, a gente chora, se elogia, sente orgulho uma da outra e se inspira pros próximos treinos e pra seguir em frente.”

O time se auto motiva e se orgulha do que é para seguir em frente, sem deixar que as poucas jogadoras desanimem.

O time das Rebels se auto motiva e se orgulha do que é para seguir em frente, sem deixar desanimar.

E você, o que falta para se jogar no track com seu time? Fale com a gente aqui do Pense Derby, quem sabe não podemos trocar ideias?

 

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About Naclara

Ana Clara Miranda por nascimento. Naclara ou Portu´Gal por batismo de track. Atleta da seleção brasileira de Roller Derby. Treinadora e jogadora da liga Sugar Loathe Derby Girls, do Rio de Janeiro.

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