Montando seu possante: um guia sobre quads

Naclara/ novembro 2, 2015/ Tutoriais/ 5 comments

Quem nunca ficou com muitas dúvidas na hora de comprar seu patins de roller derby? Que rodas são boas para o local onde treino? O plate que uso serve pra mim? O que são essas borrachinhas no meio desse negócio que segura as rodinhas?

Hoje trazemos um guia básico pra te dar uma base do que procurar na hora de montar seu equipamento, sua máquina de destruição, a furiosa. 

Cena do filme Rollerball

Cena do filme Rollerball

 

1) Bota (boot):

Compre uma do tamanho certo do seu pé, nem folgada nem muito apertada. Seus dedos devem ficar esticados, tocando levemente a frente, mas sem forçar. Se houver uma folga, seu pé vai deslizar um pouco dentro, causando fricção e piorando eventuais bolhas e calos. Estando frouxo ou apertado, será uma tortura usar o toe stop. Os mais largos vão fazer seu pé bater na frente e os apertados vão te torturar. Botas largas também te dão menos estabilidade, já que não seguem bem seus movimentos.

Botas com acolchoado dentro (como o modelo iniciante R3 da Riedell) tendem a perdê-lo com o tempo e criarem espaço onde não havia antes, causando desconforto. 

Usei meu R3 por quase 2 anos e o acolchoado se manteve por todo esse tempo, mas é um patins menos maleável, que mantém seu pé mais rígido e fixo (o que é bom para freshs que ainda estão inseguras), podendo dificultar em curvas em que seja preciso se inclinar mais e flexionar o tornozelo.

Vejam como os tornozelos se dobram e a bota se curva junto, permitindo o movimento. Foto retirada do blog de Wasatch Roller Derby

Vejam como os tornozelos se dobram e a bota se curva junto, permitindo o movimento. Foto retirada do blog de Wasatch Roller Derby.

 

2) Plates:

Em geral existem dois tipos de plate: o de metal e o de nylon.

Os plates de nylon têm a vantagem de serem leves, facilitando o domínio do patins, porém se você for uma pessoa mais pesada (acima de 90 quilos) pode acabar forçando muito ele e podendo envergá-lo ou quebrá-lo.

Plates de metal são mais pesados que os de nylon, mas o grande diferencial deles é o aproveitamento de energia. Explicando a física: o metal, por não envergar e não ser maleável, dissipa menos (perde menos) energia transferida. Ou seja, a força e movimentação que você faz com seu pé é transmitida quase sem perdas para o resto dos patins através do plate, que unifica sua bota com seus trucks, amortecedores e rodinhas (resumindo, tudo que está embaixo dos seus pés). Com o de nylon, por ser maleável, a energia é perdida um pouco e você tem que fazer mais força do que deveria para ter a resposta desejada dos seus patins.

Pela lógica da transferência de energia, o plate de nylon por absorver a força acaba desgastando menos os amortecedores, que “sofrem” menos.

Uma observação interessante: plates como o DA45 da Sure Grip apresentam uma inclinação de 45 graus, facilitando as curvas. Eles já estão mais inclinados, necessitando menos força para virar o truck e forçar os amortecedores, garantindo que as 4 rodinhas se mantenham em contato com o chão e perdendo menos aderência ao chão, o que te permite ter rodas mais duras e, logo, mais velocidade.

O que não é tão possível com plates como o PowerDyne Rival que têm a inclinação de 10/15 graus.

Plate PowerDyne Rival com inclinação de 10/15 graus.

Plate DA45 da Sure Grip, com inclinação de 45 graus.

Plate DA45 da Sure Grip, com inclinação de 45 graus.

 

 

3) Amortecedor (cushion/bushing):

Amortecedor padrão do patins R3 em formato de "barril".

Amortecedor padrão do patins R3 em formato de “barril”. Eles são essa borrachinha vermelha que ficam embaixo dos plates, presos ao kingpin.

A ideia geral é: se você for leve, use amortecedores mais macios. Se for pesada ou muito forte, use amortecedores mais duros. Amortecedores macios amassam mais facilmente, proporcionando um ângulo mais intenso dos patins na curva e exigindo menos força para mover os patins, enquanto os duros exigem mais força para mudar o ângulo do patins nas curvas, mas saem dela com mais pressão na hora que você volta ao normal e dão mais estabilidade. Pessoas muito pesadas com amortecedores muito macios podem não desenvolver bem, porque eles já estarão muito comprimidos sob o peso da pessoa e não renderão.

Existem amortecedores de formato de “barril”, cônicos ou de forma personalizada de acordo com o plate em que eles vêm.

Tipos de amortecedores, por curiosidade. No derby você encontra mais dos dois primeiros tipos.

Tipos de amortecedores, por curiosidade. No derby você encontra mais dos dois primeiros tipos.

O cônico se aproxima mais do chão e permite uma maior variação de ângulos do patins, você pode se inclinar mais antes que eles comecem a te “jogar de volta”.

Amortecedor em formato de cone. O de cima é como o de "barril" e o de baixo afina. Estes amortecedores facilitam os patins se curvarem nas curvas.

Amortecedor em formato de cone. O de cima é como o de “barril” e o de baixo afina. Estes amortecedores facilitam os patins se curvarem nas curvas.

Amortecedores devem ser trocados de 6 a 12 meses de uso (idealmente) ou se você vir que eles estão amassados, rachando, com pedaços faltando, etc. Se você acha q estão alterando algo da sua performance também é uma boa hora de testar outra dureza.

Preste atenção se seus amortecedores ficam ou já estão muito achatados ao usá-los, pois isso tira o rendimento deles e é preciso trocar.

Se o amortecedor é duro demais para seu peso, você vai acabar fazendo muita pressão nas outras peças, podendo rachá-las ou envergá-las.

Ambientes quentes amolecem amortecedores e os frios enrijecem.

O “copinho”, chamado “cushion retainer”, que segura o amortecedor também deve ser do tamanho certo pra ele, porque se for menor, com a pressão, pode partir o amortecedor ao meio.

Estes metais se encaixam ao amortecedor e devem ter o tamanho certo para não parti-los sob a pressão do seu peso.

Estes metais se encaixam ao amortecedor e devem ter o tamanho certo para não parti-los sob a pressão do seu peso.

4) Rolamentos (bearings):

Aqui temos rolamentos fechados, com a capinha que os fecha, e abertos, com as bilhas aparecendo.

Aqui temos rolamentos fechados, com a capinha que os fecha, e abertos, com as bilhas aparecendo.

Rolamentos são aquelas rodelinhas que ficam dentro das rodas e se prendem ao truck, permitindo as rodas girarem.

O funcionamento do rolamento por dentro, idealmente.

O funcionamento do rolamento por dentro, idealmente.

Eles têm diveeeersas classificações e podem variar de fabricante a fabricante. Em geral são classificados pela denominação ABEC (Annular Bearing Engineerring Committee) que se relaciona à precisão e exatidão deles, podendo ir de 1 a 15 em números ímpares. Rolamentos ABEC 1 são menos rápidos porém mais resistentes, indicados pra modalidades de grande impacto como o street. Já um ABEC 9 seria para modalidades de mais velocidade e pouco impacto. No roller derby a classificação  ABEC mais recomendada é a 5.

Rolamentos ABEC são rolamentos que servem para qualquer coisa que precise de rolamentos (dãaa, pareceu meio redundante e idiota isso, mas você vai entender), como máquinas, aviões, realmente qualquer coisa. Logo, não são específicos para patins.

Você encontra rolamentos específicos para patins nas marcas Bones, Bionic e Qube, por exemplo. Por serem feitos para patins (e skates), sua precisão e resistência para o esporte é maior.

Em geral usamos os rolamentos selados, os que têm uma capinha (que pode ser removida) ao invés de rolamentos blindados. A diferença é que rolamentos selados tem um giro mais suave e podem ser limpos e reutilizados. Já os rolamentos blindados têm mais proteção quanto à entrada de poeira, detritos e eventuais sujeiras, mas uma vez que ficam ruins, não é recomendado abri-los para fazer manutenção, então sua troca acaba sendo mais frequente do que a de um rolamento selado.

Quanto à lubrificação do rolamento, ela é extremamente necessária para que ele gire livremente, sem deixar as bilhas secas girando no metal, o que as deixaria muito quentes e estragaria o rolamento. Para isso é preciso usar um óleo lubrificante fino, como os específicos pra rolamentos de patins, como o da Bones. Caso não encontre esse tipo de lubrificante, são indicados outros óleos pouco espessos, como óleo de motor de carro e lubrificante de máquina de costura, mas nada melhor do que algo feito para seu patins (e que não custa caro em lojas especializadas).

Lubrificante Speed Cream da Bones.

Nunca usem WD-40 para lubrificar! Na sua mão parece que o rolamento gira bem com ele, mas depois quando você usa patinando e o rolamento esquenta, é altamente prejudicial.

 

5) Rodas:

Essa é talvez a maior dificuldade de escolha para o pessoal do roller derby. É preciso levar em conta muitos fatores: em qual piso você patina, qual seu peso, qual sua experiência e qual seu objetivo. Então vamos por partes.

Idéia geral sem contar pequenas especificidades: se você é muito leve, use rodas mais macias. Se é muito pesado, rodas mais duras.

Explicando:

Rodas macias tendem a agarrar mais ao chão, elas tem mais grip. Por quê? Porque elas são mais fáceis de serem “amassadas” com o peso, ficando com mais área contra o chão, aderindo mais e agarrando mais. Logo, rodas macias conferem menos velocidade a quem usa, mas criam mais estabilidade, por escorregarem e escaparem menos (especialmente nas curvas)

Já as rodas duras não se alteram tanto, ficando com menos área de contato com o chão e aderem bem menos, o que as faz girar mais rápido e tendem a se “descolar” do chão mais fácil. Isso tudo gera mais agilidade e velocidade, mas também menos aderência e estabilidade. Não recomendadas para quem é muito iniciante.

Se for uma superfície mais aderente e limpa, precisará de rodas duras. Se for empoeirada e escorregadia, macias.

 

  • Rodas outdoor: você deve preferir rodas bem macias para pisos externos, pois quanto mais macia, mais absorção de choques em terrenos irregulares. Uma dureza boa para outdoor seria 78A. Rodas outdoor geralmente têm o diâmetro maior, de 62 a 70mm de altura, o que melhora sua absorção de choque.
  • Rodas híbridas: São um meio termo entre outdoor e indoor, teoricamente servindo para ambos os usos e tendo uma dureza média de 84A. Porém isso faz dela um pouco dura demais para outdoor e um pouco macia e grudenta demais para indoor, fazendo perder a velocidade.
  • Rodas indoor: durezas indicadas de 86A a 100A, dependendo do chão que você patine para jogar. Lembrando: mais macia, mais grip (agarre), menos velocidade; mais dura, menos grip (agarre), mais velocidade. Fabricantes diferentes apresentam diferenças em rodas de mesma classificação de dureza, então vale a pena testar com alguém que já tenha antes de comprar.

 

Dimensões da roda:

  • Rodas wide: costumam ter 44mm de largura. Vantagens: estabilidade e aderência ao chão (grip). Desvantagens: é mais fácil acabar batendo na rodinha das outras jogadoras por ela ser mais larga, você perde agilidade de deslocamento.
  • Rodas slim: têm geralmente 38mm de largura. Boa combinação de velocidade e agilidade, mas para quem ainda é muito iniciante pode causar mais insegurança pela menor estabilidade e aderência ao piso.

Alturas das rodas (diâmetro):

Você encontra rodas de 62mm ou 59mm de diâmetro, geralmente. Rodas mais altas garantem mais velocidade, enquanto rodas mais baixas garantem mais agilidade.

Um bom site como referência na hora de comprar rodas é esse: http://firewally.net/wheels

Você configura os parâmetros e ele te indica marcas e modelos, muito bom!

 

 

6) Miolo (hub):

O miolo do patins também varia. Se você for muito pesado, talvez prefira um miolo mais resistente de alumínio. Os miolos de nylon são mais leves, mas mais frágeis, podendo se deformar com o peso, tornando as rodas mais aderentes ao chão, logo mais lentas.

Miolo de nylon "sólido".

Miolo de nylon “sólido”.

Miolos de metal não deformam com o peso, tornando o giro das rodas melhor e dando mais velocidade. As rodas também responderão mais rapidamente aos seus comandos, já que a energia aplicada sobre elas se dissipará muito menos, pelo miolo se manter firme e não deformar.

Roda com miolo de metal, mais resistente.

Roda com miolo de metal, mais resistente.

Miolos com “cavidades”, como mostrado na imagem abaixo, são mais resistentes a impactos do que miolos “sólidos”.

 

Ajustes na hora de usar os patins:

 

Apertando as rodas: rodas devem girar sozinhas por cerca de 5 segundos. Caso não girem, afrouxe um pouco os parafusos. Tente não deixá-las “sambando” no truck.

Apertando trucks: Eles estão muito apertados se vc não consegue fazer uma curva precisa ou um círculo fechado com um pé só. Estão muito frouxos se eles se movem sem você fazer força ou se movimentar intencionalmente. Tente não apertar muito o truck (que na verdade é o kingpin, não o truck), para não achatar o amortecedor.

 

Por hoje é só pessoal! Foi coisa pra caramba, é um mundo quase infinito de opções. Nas próximas 2 postagens continuaremos esclarecendo mais dúvidas sobre seus patins, como combinação de rodas e limpeza de rolamentos. Fiquem de olho!

Beijos!

 

 

 

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About Naclara

Ana Clara Miranda por nascimento. Naclara ou Portu´Gal por batismo de track. Atleta da seleção brasileira de Roller Derby. Treinadora e jogadora da liga Sugar Loathe Derby Girls, do Rio de Janeiro.

5 Comments

  1. Muito bom saber que tem alguém tão interessada nos Quad’s, e tâo solista como vc, adorei seu blog ganhou um fâ, aprendi muito com vc hoje, Obrigado Ana !

    1. De nada, Edimar! Obrigada pelo interesse! =)

  2. Nossa! Realmente é muita informação, mas informação de muita utilidade. Afinal de contas, quanto mais sabemos do produto que procuramos e compramos, melhor investido é a grana! hehehe
    Eu estou iniciando minha “new roller skating life” num patins de rua da Rye, que eu comprei depois de semanas de pesquisa. Mas quando for substituir as peças ou comprar meu derby, esse post vai valer ouro!
    Obri!! :D

    1. Bom saber, Anna! Qualquer coisa mande suas dúvidas por e-mail (naclara@pensederby.com.br) ou por inbox na página do facebook (www.facebook.com/pensederby).

      Beijos!

  3. P.S.: Amei guia de compras de rodas! haha

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