Narrar roller derby! [post convidado]

Naclara/ janeiro 18, 2017/ Inspiração, Treino, Tutoriais/ 0 comments

 

O roller derby está crescendo cada vez mais e cada vez mais precisamos de voluntários dispostos a ajudar e fazer acontecer. Você pode ajudar como NSO, fotógrafo do evento, guiar as equipes ou até mesmo narrar roller derby! E é sobre isso que falaremos hoje com o post da narradora do 5º Brasileirão de Roller Derby, Alessandra Picoli!

So many narrações!

 

Como narrar roller derby ou como não reconhecer as pessoas sem capacete

Eu narrei um campeonato de roller derby. Detalhe: não trabalho com voz. Não tinha a mínima noção do que fazer. Fui tímida boa parte da minha vida. Minhas notas máximas no karaokê nunca passam de 80. Acho minha voz e dicção péssimas. Minha experiência de narração era quase nenhuma. Mas, de algum jeito, deu certo. O público do 5° Brasileirão de Roller Derby gostou, eu me diverti e aprendi um monte.

Estas dicas valem em parte para narrar esportes como hockey, rugby, badminton, curling e outros que não são tão populares assim. Espero que gostem :)

Semanas antes

– Não existe “voz ruim”. Você pode não ter voz de locutora de rádio mas ela funciona, sim.

– A sua dicção precisa ser o mais clara possível. Treine falando as vogais com a boca mais aberta. Treine as consoantes também com trava-línguas.

– Voz anasalada? Treine falar tapando seu nariz com os dedos. Vá mudando o jeito de falar até notar que o nariz não está mais tremendo.

– Postura: muito importante! De pé ou sentada, você precisa estar reta para o ar sair direto. Pense na sua coluna como um fio reto que sai do seu cóccix até o topo da sua cabeça em um ângulo bem perto dos 90°.

– Aprenda a falar alto sem gritar. Existem técnicas para projetar a voz (que eu não sei) mas a chave parece ser respiração com o diafragma. Sabe quando você respira profundamente enchendo primeiro a barriga e depois abrindo as costelas e enchendo a parte de cima do peito? É isso. Treine esta respiração (sua professora de pilates, yoga ou meditação pode ajudar nisso). As palavras saem mais claras e mais altas sem gritaria.

– Revise as regras do roller derby com os oficiais da sua liga. Não tenha vergonha de pedir consultoria básica sobre sinais, tempos, etc. Vai ajudar muito a entender o que se passa dentro do track.

– Pense em que tipo de coisa você poderia falar. A meu ver, existem dois tipos de eventos: os que são feitos só para pessoas que já estão envolvidas com derby e os que têm uma grande participação do público em geral. Se for um evento quase só para pessoas do derby, você pode falar virtualmente qualquer coisa, contanto que descreva o jogo (placar, faltas, tempos etc). Já se o evento tiver mais público que não está acostumado a assistir jogos de roller derby, você vai precisar ser mais didática. Explicar rapidamente o que é um jam, como ganha, o que é power jam, alguma falta. Não vai poder usar palavras complicadas como “apex” sem explicar o que é.

– Ensaie! Pegue um jogo na internet, coloque no mudo e faça sua narração por cima. Se achar relevante, grave e ouça depois. Mas cuidado pra não ser muito crítica consigo mesma. É um esporte amador, lembre-se disso. É pra ser divertido pra você também!

E se reclamar, narro todos os jogos também!

 

Às vésperas do jogo

– Cuide da sua saúde. Coma direito, hidrate-se, faça exercícios, durma. Trate de não ficar doente justo agora.

– Cuidado com o que você come. Ficar arrotando ou correndo pro banheiro durante a narração é uó.

– Cuidado em especial com a sua garganta. Se você fuma, pegue leve. Bebidas alcoólicas fortes parecem afetar a voz também, pelo menos no meu caso. Karaokê, então, nem pensar (snif). Já coisas geladas ou quentes, alimentos picantes, acho que é lenda. Pra mim nunca fez diferença nenhuma.

– Confira a agenda de jogos com a organização do evento. Descubra como chegar e onde comer no local.

Ai, minha gargantinha!

 

No dia

– Chegue cedo!

– Descubra como funciona o microfone. Onde liga e desliga e onde você tem que falar para ser ouvida. O microfone que usei no Brasileirão era do tipo que você precisa falar em cima (e não do lado). Veja também até onde você pode se mexer sem causar microfonia.

– Use roupas que não apertem. Você até pode considerar estilo algo importante, mas eu acho que não sofrer como um salaminho dentro das roupas é mais.

– Repasse o roster de cada time. Confira (ou peça pra alguém te ajudar com isso) os números e nomes de todo mundo, incluindo capitãs e comissão técnica. Lembre-se que no derby 4 é diferente de 04. Se você tem dúvida sobre como pronunciar o derby name de alguém, não tenha vergonha – pergunte.

– Confirme se vai ter transmissão pela internet e onde está a câmera/celular que vai fazer isso.

– Cheque quais são os patrocinadores e apoiadores que terão seus nomes citados.

– Aqueça sua voz. Passe uns dois minutinhos fazendo brrrrr continuamente em várias escalas, depois rrrrrr, mmmm, vvvvvv e mamamama. Soa estúpido mas ajuda bastante. Você vai ser aloka das caretas, mas pelo menos não vai ficar rouca no fim do jogo.

– Tenha sempre em mãos garrafinha de água, lenço de papel, caderninho com a escalação dos times e caneta.

– Tomar um gole de bebida alcoólica forte não ajuda, vai por mim. Não “limpa a garganta”. O que ajuda um pouco é tomar algo como chá quente ou fazer gargarejo de água morna com sal.

Grrrrr, que diliça

 

Na hora do jogo

– Preste atenção no track! Não é hora de responder mensagens. Seu celular vai servir praticamente como um relógio de luxo neste período.

– Uns 2 minutos antes do horário previsto para o jogo (o 5° Brasileirão foi bem pontual neste quesito), chame os times para serem apresentados. Não é obrigatório, mas todo mundo gosta de ter seu nome chamado no microfone.

– Lembre-se de falar sobre os patrocinadores. Eu falava o tempo todo sobre a Rye penalty box e algumas vezes sobre o novo modelo de patins deles, o Tattoo Derby. Falei do Pense Derby, que fez a transmissão de parte dos jogos. E falei até do tio do xis que me salvou na tempestade do segundo dia (praticamente um patrocínio informal).

– No início de cada período, diga qual é o evento, quais são os times e com que cor cada um deles joga. Isso importa bastante para a transmissão.

– Peça para o público não assobiar, isso atrapalha os refs. Se as torcidas estiverem fazendo barulho ensurdecedor, peça para maneirarem também.

– Diga sempre quem são as jammers. Pode dizer só o número e cor. Isso não é obrigatório, mas os NSO sempre agradecem quando fazemos, facilita a vida deles.

– Tente não focar apenas nas jammers. É difícil, eu sei, mas tem muito mais coisa acontecendo no resto do track.

– Fale sempre o placar do jogo, pelo menos a cada 2 ou 3 jams. O score costuma ser projetado numa tela e nem todo mundo consegue enxergá-lo.

– Se alguém for desqualificada ou expulsa, não puxe aplausos do público. Esse não é um comportamento que o roller derby incentiva.

– Você pode anunciar os power jams, mas não ceda à tentação de avisar que a jammer está saindo do banco. Fale do fim do power jam apenas quando a jammer já estiver tocando no bloqueio adversário. Cuidado também nas passagens de calcinha, não dê informações que podem influenciar o andamento do jogo. Só fale depois que a calcinha já estiver praticamente no capacete da pivô.

– Não tenha medo de tirar dúvidas com os oficiais sobre algo que você não entendeu. A maior parte das vezes alguém pode acenar pra você e confirmar ou negar algo.

– O tempo que aparece no placar é apenas um indicativo. O que vale é o contado pelos NSO. Então nunca fale que faltam 30 segundos para o fim do jogo – o número no painel pode não ser o oficial.

– Pode torcer? Em teoria, não pode, mas a gente sempre acaba torcendo pelas jogadas bonitas.

– Pode falar bobagem? Pode, aliás, deve! Todo mundo na quadra está vendo as mesmas coisas que você. Por mais que a narração seja descritiva, tem espaço para falar amenidades e fazer gracinhas. Só não deixe isso se tornar mais importante que o jogo.

 

 

A dica final:

A maior parte dos guias de como narrar eventos esportivos recomenda escutar outros narradores e tentar imitá-los para descobrir qual é o seu estilo. Eu escolhi ignorar completamente essa dica e partir do zero absoluto (não costumo assistir esportes além do derby). E, mesmo com um monte de percalços, gostei do resultado. Acho que temos uma chance incrível de criar um estilo totalmente nosso, original, com as características que o derby brasileiro quer e precisa. O público e toda comunidade do roller derby agradecem :)

Vejo vocês no próximo evento!

 

I’m out!

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About Naclara

Ana Clara Miranda por nascimento. Naclara ou Portu´Gal por batismo de track. Atleta da seleção brasileira de Roller Derby. Treinadora e jogadora da liga Sugar Loathe Derby Girls, do Rio de Janeiro.

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