Por que o derby não cresce no Brasil?

Naclara/ setembro 1, 2016/ Inspiração/ 1 comments

 

Essa é só uma provocação em forma de pergunta, afinal o derby cresce SIM no Brasil a cada dia. Mas como todo e qualquer esforço independente (sem apoio, patrocínio ou incentivo), o crescimento é gradativo e sentimos estar dando 3 passos para frente e 2 para trás, vez ou outra.

O que eu gostaria de trazer como discussão na verdade são algumas justificativas (ou seriam “desculpas”/”alfinetadas”?) que são dadas quando nos perguntamos o que nos falta.

 

  • É um esporte feio, ninguém entende

Amigo, você também é feio e eu não falo que você não deve continuar vivendo por causa disso. Feio é ficar falando mal de um esporte que traz tantos benefícios pra quem o pratica ao invés de estar lavando essa sua louça acumulada.

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É verdade que à primeira vista é muita gente se batendo no track e dificilmente um leigo entenderia o que acontece ali, mas o mundo é cheio de esporte considerado feio e nem por isso eles deixam de existir. Então antes de julgar pela estética, procure conhecer, saber como o esporte funciona e como ele muda a vida de muitas pessoas.

O atleta Caio Bonfim, da marcha atlética, sofre com piadas homofóbicas por falta de conhecimento da população que o vê treinar. Como ele disse: "As pessoas vão descobrir que você não está ali brincando. É um trabalho sério, é mais um esporte. Com esses resultados, a gente vai melhorando a cultura esportiva do Brasil." Mais informações em http://sportv.globo.com/site/programas/rio-2016/noticia/2016/08/xingado-todos-os-dias-caio-bonfim-celebra-quarto-lugar-na-marcha-atletica.html

O atleta Caio Bonfim, da marcha atlética,

Um grande exemplo de como essa falta de informação e excesso de avaliação pela “estética” é prejudicial é o atleta brasileiro Caio Bonfim, da marcha atlética, que sofreu com piadas homofóbicas durante seus treinos. Com a visibilidade do esporte na Olimpíada (Rio 2016), ele disse: “As pessoas vão descobrir que você não está ali brincando. É um trabalho sério, é mais um esporte. Com esses resultados, a gente vai melhorando a cultura esportiva do Brasil.” Caio teve o quarto lugar durante as Olimpíadas de 2016 no Rio, ou seja, arrasou! Afinal, ser o quarto melhor do mundo no seu esporte, mesmo sem medalha, não é pouca coisa não!. Mais informações sobre o ocorrido aqui.

E de beleza em beleza, vamos concordar que MMA tem uns lances bem esquisitos e tá cheio de gente aí assinando até canal pago pra ver.

Cheira aqui, amigo!

Cheira aqui, amigo!

 

  • São muitas regras confusas e elas sempre mudam

Ok, admito que no derby são muitas regras mesmo, mas tem outros esportes que as regras não são sempre tão claras pra quem é leigo. Eu adoro rugby e hockey no gelo, mas nem sempre entendo tudo o que acontece durante o jogo.

“Aquilo ali não é falta??? Como assim? Mas a pessoa quase morreu!!!”

De boa, sem falta, miga

De boa, sem falta, miga.

Falta? Até é, mas não vamos interromper por causa disso, não é mesmo?

Falta? Até é, mas não vamos interromper por causa disso, não é mesmo?

E durante a Olimpíada do Rio, em alguns esportes, vez ou outra um comentarista falava “a regra tal mudou, antigamente podia fazer isso, agora não pode mais” ou coisa do tipo. Então SIM, outros esportes também têm as regras alteradas de acordo com sua evolução (e estou aguardando virar falta fingir machucado no futebol). A tendência é que no derby haja cada vez menos alterações de regra, até que o esporte (que é relativamente novo) se molde da melhor maneira.

 

  • É um esporte de nicho

“Ah, as pessoas entram porque encontram pessoas parecidas com elas, que não se encaixam em outros esportes, aí tem muita lésbica, tatuada, trans, de cabelo colorido… (segue a lista com outras “minorias” que fogem à família tradicional brasileira)”

Tá… e daí? Tem gente praticando o esporte? Tem gente curtindo? Tá atrapalhando a vida de alguém? Então…

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Quem liga pra isso?

 

  • As participantes não tem mentalidade de atleta

Essa é a parte que talvez mais atrapalhe, pois como a maioria das pessoas vêm de um passado sedentário, fica difícil fazê-las entender que a liga não é um clubinho social ou que o treinador tem que ser duro com as jogadoras. Então quando elas descobrem a dura realidade, acabam saindo e largando o esporte, por terem entrado com os objetivos incoerentes com a verdadeira realidade do esporte. E com isso, muitas ligas demoram a crescer.

Geralmente quem já vem de algum outro convívio esportivo sabe que o objetivo maior de uma liga é JOGAR e se o treinador puxa mais, fala grosso ou te dá bronca porque você fez algo ruim (não errado, mas ruim), amiga, SÓ ACEITA. Se quer moleza, nem sai da cama.

O técnico Bernardinho mostrando toda a sua calma e tranquilidade.

O técnico Bernardinho mostrando toda a sua calma e tranquilidade.

 

  • Não existe uma federação vinculada ao governo

Nossa federação se chama WFTDA (Women’s Flat Track Derby Association). Foi fundada em 2005 e é independente de vínculos com as federações de patinação de nossos países, regida pelo lema “by the skaters, for the skaters” (por patinadores, para patinadores). As patinadoras são suas principais donas, organizadoras e administradoras de ligas. Elas (nós) trabalham(os)  de forma voluntária para fazer o esporte funcionar, seja estabelecendo padrões para as regras, temporadas, normas de segurança e diretrizes para competições nacionais e internacionais de suas ligas-membro. Todas as ligas-membro da WFTDA tem voz nos processos de decisão. Temos ainda muitas ligas que ainda não são membro, mas que seguem suas normas e buscam a filiação.

Ou seja, é um esporte feito para ter a cara de seus jogadores/participantes, coisa que geralmente não acontece quando nos associamos a entidades do governo regidas por pessoas (geralmente homens) que não sabem nada do mundo do esporte, que é cheio de peculiaridades que não se encaixam em outras competições (como a abertura em relação a diferentes identidades de gênero e sexualidade, oficialmente escritas e divulgadas nos valores da associação, utilização de derby names para as jogadoras que incluem trocadilhos muitas vezes sacanas, entre outras coisas).

Eventualmente ocorrem desavenças entre a WFTDA e a FIRS (Fédération Internationale Roller Sports) que tenta colocar o esporte para sob sua organização, o que acarretaria em diversas mudanças no formato atual.

Se associar a uma federação poderia facilitar o crescimento e reconhecimento do esporte? Talvez. Mas grande parte da comunidade não está de acordo em largar sua identidade em troca de uma suposta ajuda nesse sentido. Então estamos muito bem como estamos, obrigada.

E, na verdade, estar em uma associação ligada ao governo pode não trazer visibilidade alguma, afinal, você já ouviu falar do esporte Sepak Takraw? Pois é, nem eu. Mas ele tem uma associação que pode ser vista no site do governo federal aqui. E mesmo totalmente desconhecidos, a seleção brasileira de Sepak Takraw detém os títulos da Copa do Rei da Tailândia de 2000, 2003 e 2007. Além de títulos na França, Guiana Francesa e Colômbia!

Segura essa cortada, migo!

Segura essa cortada, migo!

Para quem ficou curisos: O sepak takraw é um desporto nativo do Sudeste Asiático, similar ao voleibol, mas no qual se utiliza uma bola de rattan (espécie de cana de bambu) e só se permite aos jogadores utilizar os pés e a cabeça para tocar a bola. (fonte: wikipedia)

 

  • Não é um esporte olímpico

Como já vimos anteriormente, ser ou não um esporte reconhecido mundialmente indifere no crescimento do mesmo. E se você ainda acha que só esportes olímpicos têm reconhecimento, saiba que a famosa brincadeira de cabo-de-guerra já teve espaço nas Olimpíadas, de 1900 a 1920. O esporte Kabaddi também já teve uma demonstração olímpica em 1936, em Berlim. São dois times, que se postam cada um em um lado de uma quadra. O time que estiver atacando envia um jogador ao território rival para tentar pontuar derrubando os adversários. Depois, o atleta tem que voltar ao seu campo gritando “kabaddi” e segurando a respiração. (fontes aqui e aqui)

Medalha de prata em cair de cara na lama publicamente.

Cabo-de-guerra na Olimpíada de 1936.

Pois é, ser olímpico também indifere mesmo.

 

Conclusões?

Nos EUA o esporte é o mesmo que aqui: não existe federação atrelada ao governo, o esporte tem as mesmas regras que mudam da mesma maneira, atrai pessoas de diversos tipos de passado atlético e mesmo assim ainda há lugares onde arenas e ginásios lotam com fãs de todos os tipos, inclusive com ingressos esgotados, como é o caso das Gotham, em Nova York, quando fazem suas temporadas internas com os home teams.

O que acontece é que parece que acabamos num looping de problemas e soluções que nunca se encontram: as ligas precisam divulgar mais para atrair mais ajuda e crescerem, mas para conseguirem aumentar seu alcance acabam precisando de apoio (seja da administração local, recursos financeiros para divulgação e compra de equipamentos, entre outros) e esse apoio acaba só vindo quando a liga já tem mais visibilidade e mostra que é um esporte com potencial lucrativo para tais apoiadores.

No Brasil estamos com cada vez mais eventos de roller derby. Antigamente só tínhamos o Brasileirão uma vez ao ano, que era a competição mais esperada entre ligas brasileiras, e hoje já contamos com o Twisted and Mixed voltado para ligas menores, jogos internos das ligas maiores, alguns eventos esporádicos como scrimmages e pequenos torneios, além de bootcamps. Com esse aumento de eventos, além de fortalecer o esporte nacional, estamos tendo mais chances de jogar e crescer. Quem sabe assim o esporte não se firma mesmo?

Então vamos parar de nos prender às desculpas que os outros inventam para nós e correr atrás do nosso espaço, seja patrocinado ou não. E se alguém vier com uma dessas ladainhas pra querer dizer que sabe mais que você, pode mandar esse textão. ;)

Aceita meu roller derby e chora, querido.

Aceita meu roller derby e chora, querido.

E quais seus pensamentos sobre isso? O roller derby é ou não um esporte que veio para ficar?

 

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About Naclara

Ana Clara Miranda por nascimento. Naclara ou Portu´Gal por batismo de track. Atleta da seleção brasileira de Roller Derby. Treinadora e jogadora da liga Sugar Loathe Derby Girls, do Rio de Janeiro.

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