Naclara/ abril 19, 2018/ Sem categoria/ 0 comments

 

Querido derby,

Quando eu te conheci, não estava no meu melhor momento, mas você me valorizou, me aceitou, como ninguém nunca havia me valorizado antes.

Me senti especial. Cada momento que passávamos juntos era uma experiência nova e cheia de aventuras.

Me fez acreditar que nasci para você e que você nasceu para mim. Que eu nunca encontraria outro melhor que você.

O tempo foi passando e você me machucava. Foram tantas dores que já perdi a conta. Mas eu seguia confiando em você, acreditando que você salvou minha alma.

Quanto mais eu me envolvia com você, mais eu entrava em uma bolha que me afastava da realidade. Meus antigos amigos não podiam entender o que se passava, então acabei me afastando deles. Eles não conseguiam entender como o mundo era melhor com você.

Eu falhei diversas vezes depois, já não sabia qual de nós dois era o problema. Chegou a passar pela minha cabeça te largar, mas o que seria de mim sem você? Já havia dedicado tanto da minha vida nisso que se tornou muito dolorosa a ideia de te perder.

E sigo tentando, um passo de cada vez, nem sempre acertando, mas sempre dando meu melhor.

 

Se identificou?

Esta “carta” é baseada em situações reais comumente observadas entre jogadoras de roller derby. O derby muitas vezes é comparado com um relacionamento ruim, como é possível interpretar no texto acima, mas devemos lembrar que, antes de tudo, ele é um ESPORTE, não uma pessoa.

Na grande maioria dos casos, não é o esporte que nos “machuca” (fisicamente sim), mas o burnout, a estafa, a decepção, a frustração, a quebra de confiança… e essas coisas são causadas por PESSOAS, mesmo que às vezes as “pessoas” sejam nós mesmas.

O derby, pelo bem ou pelo mal, vai muito além de somente um esporte em que você comparece, pratica, vai para casa, descansa e volta no próximo treino com a cabeça zerada. Quem começa a praticar rapidamente se vê envolvido em diversos âmbitos dessa “experiência”. A raiz “faça-você-mesma” (do it yourself) do esporte é levada ao pé da letra desde a menor liga até a organização mundial, a WFTDA. Tudo é feito pelas próprias praticantes. Então, além de treinar (pesado, porque não é um esporte leve), os membros ainda precisam abrir planilhas, fazer controles, buscar espaços, arrecadar dinheiro, gerir pessoas, mediar conflitos, pensar em cronogramas, montar treinos, etc. A lista segue infinitamente. Resumindo: o roller derby funciona como uma empresa, cheia de trabalhos, mas sem remuneração (na maioria dos casos). É por isso que devemos sempre ajudar umas às outras, para que ninguém se sobrecarregue e veja o derby como um fardo maior do que podemos suportar.

Somada a tudo isso está a interação humana intensa. Além de dividir a pista com outros membros, procurando a integração e melhoria de comunicação dentro do jogo, fora da pista são outras milhões de formas de interações nem sempre fáceis. Disputas de poder, opiniões divergentes, trabalhadeiras e preguiçosas, pagantes e devedoras, presentes e faltosas… isso tudo gera diversas tensões que, não sabendo lidar, podem quebrar um time.

Nessa interação, o derby nos fortalece, mas também nos torna vulneráveis. Nos abrimos para um grupo com o qual temos muitas semelhanças mas que também apresenta muitos conflitos internos (resultado de uma sociedade desigual, opressora e machista), todas lutando suas próprias batalhas. Se não tivermos atenção a essas questões, nos quebramos e nos machucamos além de fíbulas e tíbias. É preciso aumentar nossa empatia, nosso coeficiente de paciência e nos colocarmos no lugar umas das outras para entender o por quê de certas atitudes, sem pré-julgamentos. A conversa aberta e a boa escuta são essenciais no esporte, como em qualquer relacionamento, pois as “erradas” podem estar sendo nós mesmas.  

Há vida fora do derby sim e se ele estiver te fazendo mal, você pode parar, respirar e, se achar bom, voltar. O derby é muito bom, recomendo a todos, mas somente se ele não estiver pesando negativamente na balança.

 

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About Naclara

Naclara joga roller derby desde 2012 e atualmente é diretora de Treinamento e atleta nas Sugar Loathe do Rio de Janeiro. Desde 2015 é atleta da Seleção Brasileira de Roller Derby, tendo jogado na Copa do Mundo de 2018.

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